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Análise

Em Chamas transforma a própria incerteza em conteúdo

Por Cinematologia · 28 de agosto de 2026

Nota 4,5

Poucos filmes recentes controlam tão bem a diferença entre não saber e não poder saber quanto Em Chamas. Dirigido por Lee Chang-dong, com roteiro dele e de Oh Jung-mi, o longa sul-coreano de 2018 tem 148 minutos e gasta boa parte deles construindo uma dúvida que nunca será resolvida. A paciência é o método, não um defeito de ritmo.

Jong-su (Yoo Ah-in) trabalha como entregador e reencontra Hae-mi (Jeon Jong-seo), conhecida de infância que morava no mesmo bairro. Ela viaja e pede que ele cuide do gato. Volta da África acompanhada de Ben (Steven Yeun), rapaz de dinheiro sem origem explicada, dono de um passatempo que descreve com naturalidade perturbadora. O triângulo é a estrutura, mas não é o assunto.

O assunto é classe, e o filme estabelece isso cedo, numa cena de mímica. Hae-mi finge descascar uma tangerina e explica que o truque não é imaginar a fruta presente, e sim esquecer que ela não está ali. A fala funciona como chave de leitura de tudo o que vem depois. Jong-su vive numa casa rural de fronteira, onde se ouve propaganda norte-coreana vinda de alto-falantes do outro lado. Ben vive num apartamento de bairro rico de Seul e cozinha massa enquanto fala de metáforas. Entre os dois, Hae-mi ocupa o lugar de quem não pertence a lado nenhum e por isso pode sumir sem que o sistema registre a ausência.

Lee Chang-dong filma essa desigualdade sem discurso. A fotografia de Hong Kyung-pyo prefere luz natural em declínio, e a sequência mais lembrada do longa, com Hae-mi dançando ao entardecer sobre a trilha de Mowg enquanto o céu perde cor em tempo real, é bela justamente porque não é decorativa. É o último momento em que a personagem existe plenamente para o filme.

Da metade em diante, o registro muda. O que era drama de classe vira investigação, e a investigação vira obsessão. Jong-su começa a medir, mapear, correr, vigiar. O espectador acompanha por dentro dessa fixação, e é aí que Em Chamas executa sua manobra mais difícil: torna a suspeita simultaneamente plausível e suspeita. Ben pode ser exatamente o que Jong-su acha que é. Jong-su pode ser um homem ressentido construindo um vilão à altura da própria humilhação. O roteiro se recusa a arbitrar, e essa recusa é sustentada até o último plano.

Steven Yeun é decisivo nessa engenharia. O papel exige um ator simpático e não confiável ao mesmo tempo, e ele resolve por microexpressões: um bocejo fora de hora, um sorriso que dura meio segundo além do necessário. Yoo Ah-in faz o oposto e constrói Jong-su como opacidade quase completa, um sujeito de reações atrasadas que nunca articula o que sente. Jeon Jong-seo carrega o único personagem com vitalidade plena, o que torna sua saída de cena mais grave do que qualquer explicação daria conta.

O preço dessa construção é real. Os 148 minutos pesam no terceiro ato, e a ambiguidade, levada tão longe, abre espaço para uma leitura preguiçosa em que toda interpretação vale igualmente. O desfecho é violento e propositalmente incapaz de confirmar se foi justiça ou delírio. Quem exige resolução vai sair irritado, e a irritação é legítima.

Ainda assim, é um dos raros filmes que transformam a própria incerteza em conteúdo. Classificado como mistério, drama e thriller, coproduzido entre Coreia do Sul e Japão com participação da NHK, Em Chamas é menos um enigma a decifrar do que um retrato de como a desigualdade fabrica monstros na cabeça de quem está por baixo. E, talvez, também fora dela.

Onde assistir

No Brasil, Em Chamas está disponível por assinatura apenas no Belas Artes à La Carte. Não há, no momento, opção de aluguel ou de compra avulsa listada para o país, nem presença nos grandes catálogos generalistas.

Este texto foi produzido pela redação da Cinematologia com apoio de inteligência artificial, a partir de dados de catálogo do TMDB (elenco, direção, datas e disponibilidade em streaming), e revisado antes de ir ao ar. Achou algum erro? Avise a gente.