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Análise

Era uma Vez no Oeste: o faroeste que assiste ao próprio enterro

Por Cinematologia · 7 de agosto de 2026

Nota 4,5

O maior mal-entendido sobre Era uma Vez no Oeste é tratá-lo como o auge de um gênero. Ele é o contrário: um faroeste feito por quem já sabe que o faroeste acabou e decide encenar o enterro com pompa de ópera, em vez de fingir vitalidade. Sergio Leone gasta 166 minutos para dizer uma coisa só, e a coisa é dura — o pistoleiro perdeu o emprego.

A prova está em quem manda no filme. O vilão não é Frank, o assassino de olhos azuis. É Morton, o dono da ferrovia vivido por Gabriele Ferzetti: um homem doente que se arrasta dentro do próprio vagão e que nunca precisa sacar uma arma. Frank trabalha para ele. Essa é a inversão que sustenta o roteiro assinado por Leone e Sergio Donati, sobre argumento do próprio Leone com Bernardo Bertolucci e Dario Argento. O homem violento virou funcionário. O capital virou o antagonista real, e o capital não duela — contrata.

Daí vem a decisão de elenco mais radical da obra. Henry Fonda, rosto que o cinema americano usara por três décadas como sinônimo de decência, entra em cena para matar uma criança. Leone não suaviza nada: filma o crime, corta para o primeiro plano e deixa que aqueles olhos trabalhem sozinhos. É crítica ao próprio gênero. Se o rosto mais confiável do faroeste clássico pode fazer aquilo, a mitologia inteira estava mal contada.

E há Jill. Claudia Cardinale interpreta a única personagem com futuro em cena, e o filme sabe disso muito antes dela. Os três homens armados — Frank, Cheyenne (Jason Robards) e o pistoleiro sem nome de Charles Bronson — estão presos a contas antigas, vinganças pessoais e códigos que ninguém mais respeita. Jill quer terra, água e uma cidade. É a única que pensa em amanhã. Num gênero que costuma dar à mulher o papel de motivo ou de prêmio, Leone entrega a ela a herança e o desfecho. O movimento de grua que acompanha sua chegada à estação de Flagstone, subindo até revelar a cidade inteira em obras, não é firula: é o filme anunciando de quem é a história.

O ritmo é o outro argumento. Leone estica cada cena até o desconforto. A abertura na estação, com três homens esperando um trem, gasta minutos em pingos d'água, numa mosca e no ranger de um cata-vento. Não é preciosismo. É a única forma de fazer o espectador sentir a duração de um mundo parado pouco antes de a locomotiva chegar. A fotografia de Tonino Delli Colli alterna o rosto enorme e o horizonte vazio sem nenhum meio-termo. E a trilha de Ennio Morricone dá a cada personagem um tema próprio, de modo que a música identifica quem entra antes de a câmera mostrar. O filme conta duas vezes: uma pelos olhos, outra pelo ouvido.

O que envelheceu mal é o tamanho. Há um bom terço do segundo ato em que a trama de leilão e dívida se arrasta sem acrescentar peso ao que já foi estabelecido. Um faroeste sobre o fim do tempo dos pistoleiros não precisava de tanto tempo para provar que o tempo acabou.

Veredito: um filme grande, consciente e melancólico, que usa o faroeste para falar da economia que o matou. Quem procura ação encontra pouca. Quem procura cinema encontra quase tudo.

Onde assistir no Brasil: pelos dados de disponibilidade do TMDB, Era uma Vez no Oeste está no catálogo da Netflix, inclusive no plano com anúncios, e da Looke. Há também aluguel e compra avulsos na Apple TV Store, no Amazon Video e no Google Play, além de exibição com anúncios no NetMovies.

Este texto foi produzido pela redação da Cinematologia com apoio de inteligência artificial, a partir de dados de catálogo do TMDB (elenco, direção, datas e disponibilidade em streaming), e revisado antes de ir ao ar. Achou algum erro? Avise a gente.