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Análise

O Som ao Redor e a tese de Kleber Mendonça Filho sobre quem tem direito de ficar

Por Cinematologia · 23 de agosto de 2026

Nota 4,5

O título de O Som ao Redor não é metáfora. É instrução de uso. O primeiro longa de ficção dirigido por Kleber Mendonça Filho, lançado em 19 de novembro de 2012, organiza sua rua de classe média no Recife menos pelo que se vê do que pelo que se escuta: portões elétricos, latidos, aspirador, televisão do vizinho, o zumbido do ar-condicionado. A trilha de DJ Dolores entra pouco. O resto é ruído doméstico tratado como matéria dramática.

A trama é deliberadamente frouxa. Uma equipe de segurança particular se instala na rua e oferece tranquilidade mediante pagamento. A partir daí o filme circula entre moradores sem eleger um protagonista claro. Francisco (W.J. Solha) é o patriarca que possui boa parte dos imóveis. João (Gustavo Jahn), seu neto, vende apartamentos e namora Sofia. Bia (Maeve Jinkings) administra a casa, os filhos e uma insônia provocada pelo cachorro do vizinho. Clodoaldo (Irandhir Santos) chefia os vigilantes.

O que amarra tudo é uma tese sobre propriedade. Mendonça Filho filma grades como quem filma arquitetura de guerra, e a câmera insiste em enquadramentos que colocam personagens atrás de barras, vidros e vãos. A segurança privada aparece não como solução, mas como sintoma: gente pagando para manter de pé uma ordem que já era violenta antes de precisar de vigilância.

O acerto do filme está em não transformar isso em sermão. O registro é frequentemente cômico. A guerra de Bia contra o cachorro escala para um absurdo doméstico, e Maeve Jinkings sustenta a personagem entre o riso e o desespero sem nunca pedir simpatia. Há uma cena de aspirador de pó e uma solução química para o latido que, isoladas, seriam esquetes. Dentro do conjunto, funcionam como retrato de uma classe que resolve tudo por conta própria e chama isso de convivência.

A fotografia de Pedro Sotero e Fabricio Tadeu trabalha em planos abertos e estáticos, deixando o quadro povoado. É um filme de espera. Isso cobra paciência ao longo de 131 minutos, e o meio do longa se dispersa em subtramas que não fecham. Alguns fios existem só para dar densidade de bairro, e nem todos justificam o tempo que ocupam.

Mas a classificação de thriller que o filme carrega é honesta, e o último ato explica por quê. A ameaça que o roteiro vinha construindo não vem de fora, do criminoso anônimo que a vigilância promete conter. Vem de uma conta antiga, de terra e de sangue, que o próprio quarteirão herdou sem nunca ter quitado. Mendonça Filho resolve esse acerto quase inteiramente pelo som, fora de campo, e a decisão é coerente com tudo que veio antes: o filme sempre soube que o perigo estava no que se ouvia pela parede, não no que se via pela janela.

Vista hoje, a obra também funciona como ponto de partida de um projeto. As grades de O Som ao Redor viram o prédio sitiado de Aquarius (2016) e depois o vilarejo cercado de Bacurau (2019). Os três filmes tratam do mesmo assunto: quem tem direito de ficar. Este é o mais contido dos três, e talvez por isso o mais desconfortável. Não há resistência heroica nem vingança coletiva, apenas um bairro que segue funcionando.

Onde assistir

No Brasil, O Som ao Redor está disponível por assinatura na Netflix, no Claro tv+, no plano Netflix com anúncios e no canal Telecine dentro da Amazon. Também pode ser alugado ou comprado avulso na Apple TV Store e no Amazon Video.

Este texto foi produzido pela redação da Cinematologia com apoio de inteligência artificial, a partir de dados de catálogo do TMDB (elenco, direção, datas e disponibilidade em streaming), e revisado antes de ir ao ar. Achou algum erro? Avise a gente.