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Especial

Por que a trilha de faroeste mudou o cinema inteiro

Por Cinematologia · 22 de agosto de 2026

Nenhum gênero fez mais pela música de cinema do que o faroeste, e não foi por acaso. Um filme de deserto tem pouco diálogo, pouca mobília e muito silêncio a preencher. Onde outro gênero resolve com conversa, o faroeste precisa resolver com som. Em pouco mais de quinze anos, essa carência virou um laboratório — e o método saiu de lá para o cinema inteiro.

O ponto de partida útil é Matar ou Morrer (1952), de Fred Zinnemann, 85 minutos, com Gary Cooper e trilha de Dimitri Tiomkin, creditado também como diretor musical. O filme aposta numa canção que atravessa a projeção inteira, retornando em variações conforme o relógio aperta. A ideia é simples e foi decisiva: em vez de escrever música nova para cada cena, escrever uma só e deformá-la ao longo do tempo. A trilha deixa de ilustrar a cena e passa a medir o quanto a situação piorou.

A paisagem ganha tema

Seis anos depois, Da Terra Nascem os Homens (1958), de William Wyler, 105 minutos, com Gregory Peck, Jean Simmons e Charlton Heston, recebe de Jerome Moross uma abertura de outra ordem. Ali o tema não pertence a nenhum personagem: pertence ao chão. O galope na base da orquestra e os intervalos largos criaram o padrão sonoro de horizonte americano que qualquer plateia reconhece hoje, mesmo sem ter visto o filme. Foi um dos primeiros casos em que a trilha assumiu a tarefa de descrever espaço, e não emoção.

Em 1960, Sete Homens e Um Destino, de John Sturges, 100 minutos, reúne Yul Brynner, Steve McQueen, Charles Bronson e Eli Wallach, e Elmer Bernstein escreve uma marcha que faz algo diferente das duas anteriores: dá aos pistoleiros um comportamento coletivo. O tema não descreve nenhum deles, descreve o grupo em movimento. É o momento em que a trilha de faroeste se torna uma ferramenta de caracterização, e não de ambientação.

Morricone inverte a ordem

A virada mais radical veio de fora dos Estados Unidos. Por um Punhado de Dólares (1964), de Sergio Leone, 100 minutos, com Clint Eastwood e Gian Maria Volontè, traz música de Ennio Morricone. E o que Morricone faz é rasgar a regra de instrumentação: a orquestra sinfônica perde o monopólio, e entram assobio, guitarra elétrica, coro masculino e percussão áspera. Nos créditos do TMDB para o filme, Alessandro Alessandroni aparece tanto como músico quanto como arranjador musical, e Michele Lacerenza como músico — o time de solistas é parte do desenho, não um detalhe de execução.

Em Três Homens em Conflito (1966), 163 minutos, fotografia de Tonino Delli Colli, a lista de músicos creditados se alonga a ponto de incluir Edda Dell'Orso e o coro Cantori Moderni di Alessandroni. Não é curiosidade de ficha técnica: é a evidência de que a trilha foi construída por timbre, um a um, como se cada personagem precisasse de um instrumento próprio antes de precisar de uma fala. E é exatamente o que Era uma Vez no Oeste (1968), 166 minutos, também com Delli Colli e Morricone, leva às últimas consequências. O filme reúne Claudia Cardinale, Henry Fonda, Jason Robards e Charles Bronson e trata a música como identidade: o som anuncia quem está chegando antes de o rosto aparecer.

A inversão é o legado. Até ali, a música chegava depois — servia à cena montada. A partir de Leone e Morricone, a cena passou a ser cortada e encenada em função de um tema que já existia. O plano dura o que a frase musical dura. Isso deixou de ser um traço de faroeste e virou prática comum em blockbuster de ação, drama e ficção científica.

A prova de que a linguagem migrou está fora do gênero: em 1978, Morricone assina a trilha de Cinzas no Paraíso, de Terrence Malick, 94 minutos, um drama rural fotografado por Néstor Almendros. Mesmo compositor, mesma economia de temas, nenhum pistoleiro à vista.

Onde ver no Brasil

Segundo o TMDB: Matar ou Morrer está em Looke e Belas Artes à La Carte. Da Terra Nascem os Homens está em Looke, Oldflix e no canal MGM+, com versão anunciada no Pluto TV. Sete Homens e Um Destino está no Prime Video e no Plex com anúncios. Por um Punhado de Dólares aparece em Looke e Oldflix. Três Homens em Conflito está em Prime Video, Looke e Oldflix. Era uma Vez no Oeste está na Netflix e no Looke. Cinzas no Paraíso só sai por aluguel, em Apple TV e Amazon.

Este texto foi produzido pela redação da Cinematologia com apoio de inteligência artificial, a partir de dados de catálogo do TMDB (elenco, direção, datas e disponibilidade em streaming), e revisado antes de ir ao ar. Achou algum erro? Avise a gente.