Túmulo dos Vagalumes: a guerra vista pelo vizinho que fecha a porta
Chamar Túmulo dos Vagalumes de filme antiguerra é confortável demais. Bombas são um alvo fácil, e o filme de Isao Takahata quase não olha para elas. O que ele filma, com paciência quase insuportável, é o momento em que uma comunidade decide que não dá mais para repartir. O inimigo de Seita e Setsuko não pilota avião. Mora ao lado, controla o arroz e usa a palavra obrigação com muita frequência.
A estrutura deixa isso explícito antes de qualquer coisa. Takahata começa pelo fim: o espectador sabe, nos primeiros minutos, como aquilo termina. Suspense está fora de questão. Ao eliminar a pergunta o que vai acontecer, o filme obriga a assistir a outra pergunta, muito mais desagradável — por quê. Cada gesto passa a ser lido como causa, não como acidente. É uma decisão de montagem que transforma melodrama em investigação.
E a investigação chega a um lugar incômodo. A tia que acolhe os dois irmãos não é um monstro. É uma mulher com pouca comida, filhos próprios e um cálculo brutal: quem trabalha come mais. Seita, com catorze anos, ouve o cálculo e faz outro. Prefere sair de casa a continuar sendo lembrado do que deve. O orgulho dele é a peça trágica do roteiro, porque é um orgulho legítimo e, ainda assim, mata. O filme se recusa a escolher entre culpar a tia e culpar o garoto. Escolhe mostrar que a escassez faz as duas escolhas parecerem razoáveis.
A animação não é ornamento nesse projeto, é método. Takahata desenha a deterioração física de duas crianças ao longo de meses — a pele, o cabelo, a barriga de Setsuko — com precisão clínica e sem nenhum apelo. Um filme em carne e osso ou faria isso com maquiagem inverossímil ou exporia uma criança real a um trabalho que nenhuma criança deveria fazer. O traço permite a continuidade da observação: o mesmo rosto, o mesmo corpo, mudando um pouco a cada sequência. Poucos usos da animação são tão pouco decorativos.
Os vaga-lumes do título são a única metáfora que Takahata se permite, e ele a usa uma vez só, com contenção. As crianças capturam insetos para iluminar o abrigo; na manhã seguinte, a menina cava um pequeno túmulo para eles. A cena não é explicada, não é sublinhada por música e dura o que precisa durar. A trilha de Michio Mamiya, aliás, aparece pouco e nunca instrui o espectador sobre o que sentir — em 89 minutos, o silêncio faz mais trabalho do que qualquer tema.
Há quem acuse o filme de sentimentalismo. A acusação não se sustenta. Sentimentalismo é oferecer consolo, e aqui não há nenhum. Ninguém aprende nada, ninguém se redime, a cidade segue funcionando. O plano final devolve o espectador ao ponto de partida sem qualquer sugestão de que a história ensinou algo a alguém. Essa é a crueldade real da obra, e é também sua honestidade.
Veredito: é a melhor obra do Studio Ghibli que não se parece com nada mais do Studio Ghibli, e o mais rigoroso filme já feito sobre o que a fome faz com a decência de um bairro. Não é para ver duas vezes. Uma basta e dura anos.
Onde assistir no Brasil: pelos dados de disponibilidade do TMDB, Túmulo dos Vagalumes está em catálogo apenas na Netflix, incluindo o plano com anúncios. Não há, na consulta, nenhuma opção de aluguel ou compra avulsa no país.
Este texto foi produzido pela redação da Cinematologia com apoio de inteligência artificial, a partir de dados de catálogo do TMDB (elenco, direção, datas e disponibilidade em streaming), e revisado antes de ir ao ar. Achou algum erro? Avise a gente.